MARTA VÂNIA UETELA CRIA PRIMEIRA EMPRESA EM MOÇAMBIQUE QUE PRODUZ PRÓTESES ATRAVÉS DE MATERIAL RECICLÁVEL.

Inventar não é um processo fácil. É necessário um completo conhecimento de causa, para que a pessoa consiga se superar e vencer os grandes desafios que for a encontrando durante a jornada. E isso vale para qualquer situação que tenhamos que passar algum dia, seja no domínio profissional, familiar ou até mesmo a nível íntimo. Não existe uma regra, de pequenas a grandes situações, você sempre pode fazer a diferença. 

Diferença é o que a empreendedora Marta Vânia Uetela fez. Numa combinação de visão, conhecimento, força de vontade e inspiração, criou suas startups, que têm o potencial de transformar vidas.

Marta Vânia Uetela nasceu na Cidade de Maputo e passou maior parte da sua vida na província de Inhambane, local onde nasceram e residem os seus progenitores. Esta descreve-se como uma jovem com forte interesse em design e empreendedorismo. A mesma é estudante de engenharia e design industrial, e fundadora da Minimal LivingBox e da BioMec, duas empresas inovadoras no mercado Moçambicano.

A Minimal LivingBox trata-se de um estúdio de design e construção modular de casas e escritórios baseada em contentores e perfis metálicos. Segundo a empreendedora “A Minimal LivingBox foi fundada com objectivo de levar ao mercado moçambicano jovem uma solução de habitação e espaço de desenvolvimento de negócios, a preço acessível, que fosse sustentável e flexível”, pois, esse tem sido um dos principais problemas para a juventude e empreendedores nos dias de hoje.

Por outro lado, a BioMec é um estúdio que desenha e constrói próteses mecânicas baseadas em plástico coletado no mar com objectivo de levar ao mercado próteses com custo de produção controlado. Marta comentou que esta iniciativa tem como objectivo principal construir próteses em curto tempo, em 24 horas, comparado às 1080h do processo convencional, e que também tivessem atenção ao aspecto estético e ambiental.

Importa referenciar que esta Startup foi concebido neste ano e conta com cerca de 5 meses de existência. Fazem parte da BioMec seis (06) pessoas, divididas em igual número de homens e mulheres. Questionada sobres as motivações por trás da produção de próteses, a fonte disse que a ideia surge da necessidade de dar resposta rápida à procura de próteses no país, e a baixo custo.

A história por trás da BioMec envolve um colega meu que infelizmente sofreu um acidente no ano passado, e teve imensas dificuldades em ter acesso a prótese, quer pelo preço e quer pelo tempo. Então juntamos alguns amigos e começamos a trabalhar nisso. Mas à medida que íamos trabalhando fomos descobrindo que cerca de 90% dos amputados em Moçambique não tem acesso a prótese pelos mesmos motivos”, segredou-nos a empreendedora.

Outra motivação que levou a criação desta iniciativa segundo a empreendedora, é abundância do material usado para a produção das próteses. Os plásticos e garrafas recolhidas no mar, de acordo com Marta são obtidos “quase de graça”. Porém, há que salientar que para ter acesso a este material, a BioMec deve ir atrás e pagar um certo valor às pequenas associações que fazem a recolha de objectos plásticos. De uma forma indireta a iniciativa consegue subsidiar e aumentar a renda das famílias que recolhem o material, acredita a fundadora da iniciativa, conforme comenta: “Existem diversas associações que fazem a recolha deste material, tudo o que nós como BioMec fazemos é ir ter e comprar este material. Na verdade também servimos de ponte porque muita das vezes as associações fazem a recolha e não tem onde vender, e o PET ainda é uma questão sensível principalmente para essa indústria transformadora. O que acontece é que boa parte do material recolhido por estas associações é exportado para ser reciclado, e com esta situação de covid-19 não estamos a exportar esse plástico, assim, cria um excedente aqui.”

Afundadora da BioMec afirma também que o seu maior desejo com esta iniciativa é fazer com que as pessoas se sintam e tenham uma experiência de vida mais produtiva, e que tenham sustentabilidade por muito mais tempo. Até aqui a iniciativa está em fase de teste e já foram produzidas e testadas mais de 30 próteses. Marta Vânia explicou ainda que para a certificação dos produtos da BioMec, duas componentes do projecto carecem de avaliação e aprovação: a de engenharia e a médica. “Respectivamente à parte médica foram realizados todos os testes laboratoriais, testes de qualidade, entre outros. Existe outra componente médica que precisa ainda de algumas aprovações, e isso leva algum tempo. Estamos em fase de teste, estamos a produzir e não a comercializar. Só depois de alcançados os objectivos do projeto-piloto teremos as devidas certificações para comercializar”.

Como qualquer outra iniciativa empreendedora, sempre são registados desafios e barreiras fase inicial e de implementação. Com Marta nada foi diferente. Segundo Marta, uma das maiores barreiras na implementação destes processos foi o elevado custo envolvido na construção da ponte entre a ideia e o produto final. A fonte avança que a iniciativa já conta com algum apoio, nomeadamente, mentoria e apoio directo da Embaixada da Irlanda que vai prover uma parte do equipamento de produção.

Ademais, a empreendedora comentou ainda que espera que até o mês de Fevereiro de 2021 faça-se o lançamento oficial da iniciativa. Porém, apesar de haver uma data prevista, a fonte diz que tudo dependerá da rápida conclusão dos processos mais burocráticos de certificação do produto produzido pela BioMec. 

Apesar das dificuldades enfrentadas, Marta mantem-se firme nos objectivos. Esforço este que lhe valeu um prémio a nível internacional, no corrente ano. A BioMec foi considerada pelo maior evento de competição de negócios verdes a nível global – ClimateLaunchPad como a segunda melhor Startup de inovação em África. De acordo com a empreendedora, este prémio serviu para validar o seu modelo de negócio e para dar visibilidade nesta fase crucial.

Este prémio ajuda a validar o nosso modelo de negócio no sentido de que, o trabalho de mídia que iríamos fazer em dois ou mais anos fizemos em apenas alguns meses exatamente por causa deste prémio. Mas também possibilita-nos a ter este intercâmbio, ter acesso a mentores e uma rede de contactos com vários empreendedores de diversas áreas a fazerem negócios verdes.” Avançou Marta Vânia.     

A Equipe da Revista Negócios nos Chiveve soube ainda que o processo de produção é totalmente local. As próteses são feitas de garrafas plásticas recolhidas no mar, que passam por alguns processos desde a compressão em placas ao processo de moldagem para torná-las em próteses.

As próteses produzidas pela BioMec são baseadas em garrafas PET coletadas no mar. Se por um lado resolvemos a questão ambiental, por outro resolvemos uma questão social, visto que cerca de 90% da população moçambicana não tem acesso a próteses, quer pelos elevados valores envolvidos, tempo longo de espera e até mesmo pelo acesso aos serviços de saúde,” como já havia mencionado a fonte.

A empreendedora descreve como um “grande desafio” o ser um empreendedor em Moçambique, e aponta varias questões como subsídio. Exemplificando por sua experiência como empreendedora, Marta diz que é muito difícil fazer a ponte entre a ideia e um produto. A falta de financiamento e a burocracia na legalização de iniciativas são alguns dos entraves marcantes no processo a nível nacional.

Temos ainda as questões ligadas ao financiamento, desde o espaço para desenvolver o negócio e o processo todo desde o registo e a papelada toda que temos que organizar é tudo um desafio grande. Embora haja, nos últimos anos, a tendência de facilitar alguns processos, ainda continua uma coisa complicada.” Explicou Marta. Importa realçar que, a BioMec já foi registada e está neste momento no processo de certificação de produto.

Apesar das dificuldades enfrentadas no empreendedorismo, Marta Vânia Uetela terminou aconselhando a todas mulheres a optarem pelo empreendedorismo como forma de alcançar a independência financeira. Marta está ciente que é difícil começar, mas destaca a importância de se começar com aquilo que a pessoa possui mesmo que com poucos recursos.