MARLENE DE SOUSA-UMA MULHER COM A VIDA RESUMIDA EM RECURSOS HUMANOS

Natural de Quelimane e com 31 anos de idade, Marlene de Sousa é licenciada em relações internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Fez a pós-graduação em gestão de recursos humanos e mestrado em Políticas de Desenvolvimento de Recursos Humanos. Marlene é fundadora de empresa ATITTUDE e de várias outras iniciativas na área de recursos humanos.

Á Revista Negócios no Chiveve, Marlene de Sousa revelou que no 2º ano de licenciatura em Relações Internacionais descobriu que o curso que seguia não era sua paixão, contudo, viu-se obrigada a concluir. Na verdade, a nossa entrevistada descobriu que Recursos Humanos é a sua grande vocação, e atualmente a sua vida gira em torno deste mundo.

Em 2014, Marlene de Sousa regressou a Moçambique depois que concluiu os seus estudos em Portugal. Chegada ao país, enfrentou o dilema do desemprego, tendo ficado mais de 4 meses enviando curriculum através de email para várias empresas tentando conseguir uma colocação, e apenas foi aceite para um estágio depois de várias tentativas.  

Fiquei 4 meses sentada no sofá a mandar emails a procura de emprego. Acho que muita gente que estuda fora acredita que ao voltar consegue logo. Mas, na verdade é preciso também empenhar-se. E depois de muitos emails consegui uma oportunidade de estágio numa empresa de consultoria e fiquei por 6 meses.” Conta Marlene.

Quando estava em Portugal, ela sempre pensava que ao voltar para Moçambique iria fazer algo diferente e com verdadeiro impacto na vida das pessoas. Marlene acreditava que no seu regresso pudesse mudar também a percepção do país aos olhos do mundo. Importa realçar que, a mesma esteve envolvida em causas sociais após o seu regresso.

Fui desde sempre muito inconformada com tudo e, sempre no meio de debates para posicionar as minhas ideias e aquilo em que acredito. Quando voltei para Moçambique em 2014, juntei-me a mais algumas amigas e criamos a Karingando e dedicávamos os sábados a recolher material escolar nas papelarias e fazíamos doação para crianças carenciadas”, disse a Marlene de Sousa.  

A carreira profissional de Sousa começa nesta empresa onde esteve como estagiária. Ela afirma que esta empresa foi para ela mais uma escola, onde por ser uma empresa pequena esta realizava tarefas para além da área de RH, na qual ela é também formada, tendo tido a oportunidade de trabalhar na área comercial. Esta oportunidade de envolver-se em quase todas áreas dentro da empresa contribuiu bastante para que a mesma pudesse criar a sua própria empresa no ano seguinte.    

 “Tinha uma líder que percebeu que eu tinha asas e queria sempre voar mais alto, e este nunca cortou as minhas asas. No final de tudo aprendi muito, mas acredito que a minha vontade de fazer mais e a ambição de mudar as pessoas e o país é que fizeram com que não me limitasse e fosse atrás daquilo que é o meu potencial completo. E eu tenho dito que isso chama-se a minha “ATITTUDE”, que é a empresa que fundei em 2015 e tenho um orgulho tremendo do trabalho que toda equipa tem feito a nível nacional e muito recentemente a nível internacional.” Disse a entrevistada.

Nos últimos cinco anos, a empresa ATITTUDE tem crescido a um ritmo bastante satisfatório segundo a entrevistada. Importa ainda mencionar que através desta empresa, Marlene conseguiu criar um evento de referência no mercado moçambicano, conhecido como “Fórum RH”, organizado e gerido por uma equipa de profissionais jovens bastantes comprometidos com a área de recursos humanos. O Fórum de RH que nasceu em Moçambique atravessou fronteiras e já acontece em alguns países lusófonos.

Para além de Moçambique, neste momento, o mesmo evento está em Angola, Cabo Verde e Portugal. Somos referência. Para além do evento, temo-nos posicionado cada vez mais com clientes em diferentes indústrias no que diz respeito ao recrutamento, consultoria de RH, e apoio ao set-up de multinacionais. No entanto, não posso dizer que alcançamos a nossa visão, pois ainda temos muito que aprender com o mercado, e o nosso foco tem sido a busca de soluções que nos diferenciem e nos posicionem.” Defendeu a fonte.

Á Revista de Negócios no Chiveve, Marlene De Sousa avançou que a ATITTUDE é a empresa que organiza e gere o Fórum RH, e estas duas iniciativas estão relacionadas directamente e, que são o seu negócio principal. Entretanto, no início esta contava com uma equipa da ATITTUDE que dedicava-se ao Fórum em Moçambique. Hoje, devido ao plano de expansão, criou-se uma estrutura mais alargada do Fórum RH que rompe as barreiras internacionais.

 “E esta equipa 100% focada no desenvolvimento das actividades do Fórum, trabalha com a área de comunicação, imagem, contacto com parceiros, criação de estratégia do Fórum adaptada aos diferentes países. Temos um projecto muito estruturado em termos de expansão e estamos focados neste sentido, e acho que vale a pena ficarem atentos porque vem muitas novidades em 2021”, avançou a fundadora.

Segundo a fonte, ATITTUDE a partir de 2021 vai se posicionar exclusivamente com o Fórum RH. Esta defende que o foco da empresa é trazer soluções para o desenvolvimento dos Recursos Humanos em Moçambique e em África. Porém, para quem pensa que a vida de Marlene de Sousa resume-se nestas duas iniciativas, engana-se.

Além da ATTITUDE e o Fórum de RH, a nossa entrevistada está envolvida em outras iniciativas como é o caso da Cimeira Lusófona de Liderança e a Mozambique Marketing Summit. Em linhas gerais, a Cimeira Lusófona de Liderança é um evento com objectivo de reunir líderes dos países lusófonos para trazer diferentes abordagens no que diz respeito a liderança. Segundo revelou Marlene, está iniciativa foi criada por ela e uma amiga, Anabela Chastre.

O meu espírito empreendedor, e a visão de uma rede de contactos alargada, acaba por fazer com que eu me envolva em mais iniciativas. E foi então que com a Anabela Chastre criamos a Cimeira Lusófona de Liderança. Criei também o Mozambique Marketing Summit e, depois convidei duas pessoas a fazerem parte deste projecto para que fosse possível dar continuidade a todos os outros projectos. Eu diria que como empreendedora, estarei envolvida em muitos eventos porque gosto de networking e é bastante importante para o sector em que estou”, disse à Revista Negócios no Chiveve.

No mundo de RH a nossa entrevistada é uma figura bastante conhecida e brilhante a nível nacional. Questionada sobre os seus desafios, Marlene de Sousa diz que o seu desafio atual é garantir que toda a sua equipa esteja alinhada com a visão da empresa, e que todos continuem a entregar-se com a mesma qualidade que aquela demonstrada desde o início da iniciativa. 

Eu diria que outro grande desafio atual tem sido comigo mesma. Chega uma fase do negócio em que precisamos de ter a capacidade de olhar para o nosso negócio “com olhos” de quem está por fora. Isso dá-nos a possibilidade de reduzirmos os erros e de criarmos estrutura para continuarmos a dar o próximo passo”, apontou a entrevistada.

Recentemente a empreendedora lançou um livro intitulado “Mundo RH em Moçambique”. Questionada sobre os porquês de embarcar no mundo da literatura, esta refutou a possibilidade de torna-se uma escritora afirmando que o livro surge como mais uma forma de posicionamento no sector dos recursos humanos e para trazer referências. Posicionamento este apoiado com a defesa da empreendedora de que “as pessoas só mudam através de histórias, e é disso que se trata”. 

A ideia do livro surge porque eu tenho dito sempre que o país tem poucas referências, e as poucas que existam preferem ficar escondidas e não partilham sobre os seus desafios e o que fizeram para se tornarem pessoas bem-sucedidas. E tendo em conta o posicionamento da ATITTUDE de estar entre as melhores empresas de RH do país, achamos que seria um excelente projecto entrevistar quem trabalha nesta área para que possamos então criar referências na área e, fazer com que os futuros líderes de RH tenham uma visão de impacto na sua gestão”, defendeu Marlene de Sousa.

Para a criação do livro a fonte conta que, estabeleceu primeiro o objetivo principal do mesmo, de seguida criou um guião de questões que foram enviadas aos Directores de RH. Estes responderam as questões que foram depois organizadas uniformemente por uma colega empreendedora, a Carina Fernandes, gestora de conteúdos. Concluído o processo de compilação do conteúdo, o mesmo foi depois enviado para uma editora em Portugal.

A Editora RH fez a revisão, paginação e proposta da capa. O Título foi dado pelo Director de RH do Grupo TAP Portugal, Pedro Ramos que foi partilhando comigo também ideias de como o livro deveria ficar. Sou uma pessoa que facilmente pede ajuda, acredito que é o melhor e mais rápido jeito de “fazermos acontecer.” Disse a fonte.

O Livro foi compilado em apenas 6 meses, segundo Marlene este recorde deve-se ao fato de se tratar de testemunhos. A fonte vai mais fundo afirmando que não existe nenhuma componente científica e estudos no livro, e que o mesmo foi baseado nas necessidades do mercado, e da autenticidade das pessoas de forma geral. Marlene de Sousa diz que o livro é destinado aos futuros profissionais de RH.

Vai inspirá-los e fazê-los perceberem como se chega a Director de RH das maiores empresas do País. E de forma geral, estas histórias inspiram igualmente a qualquer profissional que queira ter sucesso na sua carreira. Voltaremos a ter uma segunda edição do mesmo livro para Moçambique em 2022. E neste momento estou a planear um livro na mesma vertente mas não apenas para Moçambique”, avançou a mesma.   

Segundo a autora do livro “Mundo RH em Moçambique”, a maior dificuldade que enfrentou para publicar o seu livro, foi a falta de financiamento. Esta afirma que para poder concretizar o sonho teve de fazer investimento. “Mas eu digo sempre que o que motiva os empreendedores são desafios, vivemos deles e os verdadeiros empreendedores rapidamente se focam em soluções para alcançar os seus objectivos. E isto descreve-me na perfeição”, disse a fonte.

Fazendo uma avaliação do papel da mulher na sociedade contemporânea, Marlene de Sousa defende a necessidade das mulheres acreditarem mais em si próprias. Diz ainda que as mulheres deveriam arriscar mais ou fazer mais, dando exemplos de algumas mulheres que já fazem e com impacto. Mas que ao seu ver ainda são muito poucas.

Precisamos de mais mulheres que acreditem em si, que não precisem de validação e que tenham foco naquilo que as faz felizes e não naquilo que a sociedade construiu como imagem para elas. Mas como tudo faz parte de um processo, acredito que cada vez mais teremos mulheres a fazerem a diferença, em vários sectores em vários cargos de liderança e que vão perceber o papel fundamental e responsabilidade que têm na sociedade”, salienta.

Marlene aconselha a mulher moçambicana para que, “olhe para dentro dela, e avalie o que tem de mais forte e de mais fraco”. Esta defende que, a mulher deve pegar na fraqueza e torna-la sua maior força.

E que viva a sua vida pessoal e profissional da forma que a faz feliz e esqueça que a sociedade criou uma imagem que tem formatado milhares de mulheres para uma vida igual a todas as outras que já existem. Eu acredito em uma vida, e acho descabido não fazermos o que gostamos e sermos aquilo que sonhamos ser neste único momento que temos o poder de fazer. Por isso acreditem mais, não tenham medo de falhar porque as falhas é que nos ajudam a crescer e vivam uma vida feliz e sejam a vossa própria e melhor versão”, concluiu a Marlene. Importa referenciar que, a mesma espera que cada um dos moçambicanos nas suas diferentes áreas de atuação façam mais, sejam focados em soluções para que em conjunto possa-se criar um elevado impacto no desenvolvimento do país.