O empreendedorismo já é uma palavra popular no nosso cotidiano. No entanto, tenho acompanhado alguns debates em que retomam as questões sobre o conceito de empreendedorismo e exemplos de empreendedorismo em Moçambique. Será que a vendedora de tomate no mercado do bairro é empreendedora? Será que temos empreendedoras de sucesso em Moçambique?
No dia 19 de Novembro, empreendedoras dos Palops estiveram unidas virtualmente na celabração do Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino (WED 2020) e daí surgiu a minha motivação para reflectir três características que destacam uma empreendedora. A definição de empreendedorismo deve ser feito com frequência, tanto para indicar o contexto, como para reajustar as estratégias para construir um país empreendedor.
Empreender é correr riscos calculados
Quando iniciamos a jornada diária estamos atentos para que nenhum evento coloque em causa a nossa segurança física, mental ou financeira. Já temos uma rotina que ajuda-nos a manter o corpo saúdavel, a boa disposição e dinheiro para cumprir as nossas obrigações familiares. Então, se todos que correm risco são empreendededores, significa que temos milhões de empreendedores em Moçambique?
A resposta é não. É verdade que a vendedora do mercado do bairro corre inúmeros riscos para começar e manter o negócio. Ela adquire os produtos num mercado grossista com preços baixos, corre risco de vida no transporte, corre risco ao comprar produtos perecíveis e que terá inúmero prejuízo se não vender rápido e também corre risco de ter o negócio replicado pela vizinhança e perder a sua clientela.
A diferença entre a vendedora do mercado do bairro e uma empreendedora é que a empreendedora conhece os riscos do seu negócio e assume que vai correr os riscos de forma calculada. A empreendedora têm noção dos produtos que pretende vender e do seu custo de aquisão, conhece toda a jornada de interecção com os clientes e não ignora a concorrência. A partir daí, ela estabelece uma plano de acção de como correr riscos no negócio e ter lucro. A maioria das vendedoras do mercado do bairro não sabe o que é lucro, pois a motivação para o negócio é o sustento familiar imediato.
Empreender é investir tempo, dinheiro e esforço
A palavra investimento está estritamente relacionada com o futuro ou resultado a longo prazo. De uma forma simples, posso dizer que investir é quando aplicamos o nosso capital (humano, material ou financeiro) hoje, para ter benefícios daqui a mais de cinco anos. Será que a vendedora do mercado do bairro faz uma projecção do negócio de cinco anos? Como abordei anteriormente, a vendedora do mercado do bairro está preocupada com o sustento diário da sua família. Embora a sua dedicação de tempo e esforço físico no negócio seja elevado, o seu investimento finaceiro é reduzido.
Por isso, encontramos mais uma característica crucial que afasta a vendedora do mercado da categoria de empreendedora. É importante actuar no negócio com maior comprometimento de tempo, isto é, dedicar-se a tempo integral na gestão e operação do negócio, mas saber ajustar os diferentes tipos de investimentos é que a verdadeira essência do empreendedorismo. E mais uma vez o planejamento é chamado para entrar em acção. A empreendedora estima quanto tempo, dinheiro, pessoal é necessário investir hoje e o retorno financeiro esperado nos primeiros anos do negócio.
Empreender é expor o negócio
Quando nos encontramos com uma pessoa desconhecida e pretendemos algum benefício nessa relação, o primeiro passo é a partilhar o nosso nome. Se parar passar, você não sabe o nome da tia que vende tomate no mercado do bairro? Algumas são tratadas por tia, outras por mãe de tal fulano e as poucas que tem seu nome exposto aos clientes é quando a vendedora da banca vizinha pede o troco.
A terceira característica que difere uma vendedora do mercado do bairro e a uma empreendedora é a exposição do negócio. A exposição geográfica, isto, quantas pessoas no bairro, na cidade ou no país sabem da existência do negócio tem impacto no crescimento do negócio.
Para a vendedora do mercado pode ser suficiente ser conhecida apenas no seu bairro, que já tem receita suficiente que garante uma refeição por dia da família. No entanto, para empreendedora o seu negócio deve ter um alcance maior e mais delimitado em termos de faixa etária, demografia, preferências e outros critérios de selecção do segmento de clientes. Para tal, ela precisa expor o nome do negócio ao público, apresentar o seu diferencial no mercado que vai atrair os clientes certos.
Actualmente, a exposição do negócio exige mais do que uma placa na entrada do estabelecimento comercial ou empresa, os canais digitais são imprescidíveis para apresentar o negócio e interagir com maior de clientes.
O questionamento é um exercício repetitivo, a busca por uma resposta sobre quem é a mulher empreendedora, dará lugar a novas questões para as mulheres, as instituições do governo de promoção, as ONG´s, investidores, consultores e a sociedade em geral.
A nova questão que surgiu na mente foi: Será que a imagem da mulher com o filho nas costas e a mercadoria na cabeça não é sobrevalorizada? E que consequentemente limita a transição em massa de vendedora do mercado do bairro para o estágio de empreendedora e posteriormente investidora.